Você já se perguntou por que sua equipe entrega menos quando mais se exige dela?
Em muitas empresas, a resposta não está na falta de esforço, mas no excesso dele. Processos mal dimensionados, metas incompatíveis com a capacidade disponível e decisões que ignoram o tempo de execução criam um ambiente onde se trabalha cada vez mais e se entrega cada vez menos.
Esse fenômeno tem nome: Muri.
Quer entender como tudo isso está ligado? Confira até o final para entender melhor sobre o assunto.
O tripé do Sistema Toyota: Muri, Muda e Mura
O Sistema Toyota se apoia em três conceitos: Muda (desperdício), Mura (variação) e Muri (sobrecarga). Eles formam um tripé que sustenta a eficiência nos processos.
Muita gente foca apenas em cortar desperdícios. Mas se a carga de trabalho for maior do que o sistema suporta, o problema volta. O esforço não se mantém. Por isso, eliminar o Muri é essencial. É ele que pressiona as pessoas e empurra as falhas para dentro do processo.
Definindo Muri: sobrecarga além do limite
Muri é a sobrecarga de pessoas, máquinas ou processos, aparece quando a carga de trabalho está acima da capacidade disponível.
Se a equipe precisa correr o tempo todo, se não há pausas, se tudo depende de esforço extra, então o processo está sobrecarregado. Isso reduz a qualidade da entrega e aumenta o risco de falhas. Produzir no limite não é eficiência. É desgaste.
Exemplos comuns de Muri no ambiente de trabalho
- Turnos sem pausas mínimas para recuperação.
- Demandas com prazos que não consideram o tempo necessário.
- Falta de pessoas para a quantidade de tarefas.
- Mudanças frequentes que pressionam entregas sem reorganizar o fluxo.
Esses sinais indicam que o sistema não está funcionando de forma equilibrada. Corrigir o Muri é agir antes que o problema se torne crônico.
Muda
Muda é definido como qualquer atividade dentro de um processo - seja ele produtivo ou administrativo - que irá consumir recursos. Porém, esses processos não irão agregar valor ao consumidor. Segundo Taiichi Ohno, um dos criados do pensamento Lean Thinking, há dois tipos de muda: tipo 1 e tipo 2.
- Este tipo é sobre as atividades que não promovem nenhum valor, mas que são fundamentais e não podem ser eliminadas. Exemplo: atividades de inspeção.
- Estas atividades já podem ser eliminadas sem causar nenhum prejuízo. Exemplo: retrabalho.
Mura
Já a Mura é um conceito um pouco diferente. Aqui serão avaliadas as variações que podem proporcionar maior dificuldade no controle do processo.
Sendo assim, é algo que precisa ser eliminado. Quando houver qualquer mudança dentro de um processo é preciso que haja previsibilidade dos resultados.
A Mura serve para indicar se está havendo algum desequilíbrio ou falta de padronização. O Mura ressalta que é importante criar novos processos, mas que eles devem ser padronizados e documentados, isso irá garantir que todos realizem da mesma maneira.
Como identificar o Muri na sua operação
O Muri nem sempre aparece nos relatórios. Ele se revela no comportamento das equipes, nos atrasos recorrentes e nas decisões improvisadas.
Por isso, observar os sinais certos e usar ferramentas simples de análise pode ajudar a antecipar problemas antes que eles causem impactos maiores.
Sinais de alerta em times e processos
Alguns comportamentos mostram que a operação está sobrecarregada:
- A equipe trabalha no limite o tempo todo e não consegue cumprir prazos sem esforço extra.
- Pessoas evitam tirar férias ou pausas, com medo de prejudicar o andamento das tarefas.
- Aumento de retrabalhos e erros em tarefas rotineiras.
- Reuniões e urgências tomam o lugar do planejamento.
- Equipamentos são utilizados sem intervalos, o que leva a falhas e manutenção frequente.
Esses sinais indicam que a demanda superou a capacidade natural de entrega. E, quanto mais tempo o Muri permanece, mais difícil se torna reverter seus efeitos.
Ferramentas visuais e checklists
Algumas ferramentas ajudam a identificar e mapear o Muri de forma prática:
- Gráficos de carga de trabalho: mostram se há equilíbrio entre pessoas, turnos e atividades.
- Quadros Kanban ou similares: facilitam a visualização do fluxo e destacam gargalos.
- Checklist de rotina operacional: quando tarefas essenciais estão sendo puladas, é um sinal de sobrecarga.
- Análise de tempo por tarefa: se o tempo gasto está sempre acima do previsto, o processo precisa de ajustes.
Essas ferramentas não precisam de tecnologia complexa. Basta consistência na coleta de dados e abertura para ajustar o que está desalinhado.
Exemplos de diagnóstico
Imagine uma equipe de atendimento com cinco pessoas que, ao longo das semanas, começa a atrasar respostas, acumular pendências e não consegue participar de reuniões.
Ao analisar o volume de solicitações, percebe-se que a demanda aumentou 40%, mas a equipe continua do mesmo tamanho. É um exemplo direto de Muri.
Em outro caso, uma máquina começa a apresentar falhas depois de operar em turnos contínuos. A análise mostra que o equipamento está sendo usado sem pausa por três turnos seguidos, o que está acima da capacidade técnica recomendada pelo fabricante.
Em ambos os exemplos, o diagnóstico foi feito com base em dados simples: tempo, volume e capacidade. O que muda é a atenção aos sinais.
Estratégias para eliminar o Muri com base no modelo Toyota
Reduzir o Muri envolve revisar como o trabalho é planejado, como as pessoas são treinadas e como as decisões são tomadas.
Distribuição equilibrada de tarefas
Um dos princípios da produção enxuta é nivelar a carga de trabalho. Isso significa organizar as atividades de forma que ninguém fique sobrecarregado enquanto outros operam com folga.
Para isso, é necessário:
- Estimar a capacidade de cada área com base em dados, não em metas.
- Evitar mudanças de prioridade sem revisão do fluxo de trabalho.
- Ajustar o ritmo das tarefas ao tempo disponível de cada função.
Distribuir bem não é dividir igualmente. É alocar com base na capacidade de entrega, sempre respeitando o limite do sistema.
Melhoria contínua e ciclos curtos de feedback
Quando há espaço para ajustes frequentes, o Muri pode ser reduzido antes de se transformar em crise. No modelo Toyota, as rotinas de feedback ajudam a perceber desvios rapidamente.
Aplicar essa lógica na operação significa:
- Criar momentos regulares para revisão dos processos (diários, semanais ou conforme o ritmo do time).
- Permitir que qualquer pessoa aponte sinais de sobrecarga.
- Testar melhorias em ciclos curtos, sem esperar por grandes reformulações.
Com o tempo, essa prática reduz a dependência de decisões urgentes e permite que os times façam ajustes antes que os efeitos se acumulem.
Treinamento e desenvolvimento da liderança
Eliminar o Muri também depende de líderes preparados para observar, escutar e ajustar. No Sistema Toyota, o líder tem a responsabilidade de garantir que o processo funcione sem pressão excessiva.
Isso exige:
- Capacidade de identificar sinais de desgaste na equipe.
- Conhecimento técnico sobre o processo que está gerenciando.
- Autonomia para tomar decisões que evitem a sobrecarga, mesmo que isso envolva rever prazos ou replanejar entregas.
Liderança, nesse contexto, não é cobrança. É suporte ao fluxo de trabalho, com base em dados, não em urgência.
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